Indie Lisboa 2009 - Dia 10 (Último Dia)
O inicio deste último dia do Indie deu-se com o documentário de Werner Herzog, "Encounters at the End of the World", a minha única entrada no ciclo Heróis Independentes deste ano. Apesar de ser fã do realizador, optei por filmes que não teria oportunidade de visionar de outra forma em detrimento de obras-primas como "Fitzcarraldo" ou "Aguirre".
Herzog tem balanceado a sua filmografia entre filmes (grande parte deles partilhados por outro louco do cinema, Klaus Kinski) e documentários, sempre com o seu humor caústico e observação atenta e curiosa. Desta feita, Herzog, deslocou-se à Antártica, tendo apenas como companhia o seu operador de câmera, procurando ai entender o que faz algumas pessoas se estabelecerem neste ponto inóspito do globo terrestre.
Por intermédio de entrevistas e imagens (algumas de cortar a respiração de tão belas) actuais e de arquivo, o realizador mostra-nos as principais razões da vida na Antártica que passam pela pesquisa científica em primeiro lugar e um espaço de encontro para todos os desenraizados da Vida. Será neste último ponto que o documentário ganha a sua força, na bizarria das personalidades que habitam a Antártica e que fazem deste espaço um encontro de iguais, pessoas que não se adaptam a uma vida em sociedade comum, pessoas com sensibilidades diferentes, pessoas com graus de "loucura" diversos... no fundo, trata-se de um local de rara beleza, onde a noite é um facto raro e as pessoas encontram um sentimento de pertença diferente do habitual.
Mais um excelente documentário do Indie, com uma realização sensível e uma narração feita por Herzog carregada de ironia pela Antártica e por quem ai vive. Obrigatório ver e também reflectir porque o degelo causado pelo aquecimento global do planeta está cada vez mais próximo e isso trará consequências para todos nós.
Em seguida assisti a mais um pequeno filme independente proveniente dos EUA com o título "The Pleasure of Being Robbed", realizado por Josh Safdie. Trata-se da história de Eleonore, uma jovem e destemida carteirista que passeia pelas ruas de Nova Iorque, exercendo a sua actividade com maestria e desprendimento emocional.
No inicio do filme, torna-se interessante observar os diferentes esquemas que Eleonore utiliza para roubar, contudo, tudo isso revela a sua profunda solidão... nunca nos é explicado (felizmente!!) o porquê dos actos da protagonista, nem sequer o seu passado ou porque vive daquela forma... apenas a aceitamos como é.
No momento em que rouba as chaves de um carro, num bar, e se cruza com o seu amigo Josh (interpretado pelo próprio realizador), a quem pede ajuda para localizar o carro correspondente às mesmas, dá inicio a um momento delicioso do filme no que respeita à imaginação e simplicidade. Após descobrirem a que carro pertencem as chaves, Eleonore confessa que não sabe conduzir e Josh provoca-a dizendo que lhe podia dar boleia até casa dele... o promenor é que a mesma fica em Boston.
Todo o percurso de carro com os 2 amigos é delicioso e, confesso, que fiquei surpreendido pelo facto de um momento tão simples e original ter sido traduzido desta forma. É uma viagem de descoberta e companheirismo, onde a solidão de Eleonore é mitigada através da amizade de Josh e do sentimento de ajuda prestado ao amigo.
Mais um filme que se apoia em cenários naturais, poucas personagens (basicamente o realizador e alguns amigos pessoais) e um argumento inventivo e sensível. Trata-se de uma marca intensa que o Indie deste ano deixa e que demonstra a vitalidade do pequeno cinema de autor que se faz actualmente nos EUA. Uma última observação ao delicioso título do filme, já que o prazer de ser roubado era exactamente o que fazia aproximar Eleonore das pessoas que a rodeavam.


O meu último filme do Indie 2009 foi "Wendy and Lucy", realizado pela americana Kelly Reichardt, uma pequena história de amor e preserverança entre uma mulher e a sua cadela.

Wendy (uma espantosa Michelle Williams) decide aproveitar a oportunidade de um emprego estável e bem pago no Alasca e viaja pelos EUA no seu carro, juntamente com a cadela Lucy com muito pouco dinheiro. Quando se aproxima de uma pequena cidade, o seu carro avaria e Wendy ao procurar roubar comida para Lucy num supermercado é presa e esta última é levada da entrada.

Ao longo do filme, Wendy procura a sua cadela e companheira, trava conhecimento com os habitantes da cidade (apenas um vigilante idoso a ajuda já que todos os outros a tratam como indigente) e aguarda o arranjo da sua viatura. Com este pequeno filme, Kelly Reichardt explora a importância do dinheiro na sociedade actual, a necessidade de se já se ter um emprego para encontrar outro (e ter uma morada e telefone) com o desgaste que tal conjuntura pode ter contra a motivação e confiança de quem a vive.
Não sabemos de onde Wendy vem nem quem é, apenas notamos a sua imensa força interior e o amor intenso por Lucy bem como a sua preserverança por um futuro melhor no Alasca, a terra prometida numa actualidade cada vez mais complexa e difícil. Um retrato desencantado dos EUA e da actualidade económica numa interpretação arrepiante de Michelle Williams que já tinha mostrado um pouco do seu talento no filme "O Segredo de Brockback Mountain".
A despedida do Indie 2009 não poderia ter sido melhor num ano em que predominaram os filmes com temáticas ligadas à familia e com preponderância no cinema independente de pequeno orçamento mas com interpretações superlativas e argumentos interessantes e imaginativos.
O meu Muito Obrigado aos 3 mentores do Indie e, para o próximo ano, contem de novo comigo!!
Carpe Diem.

Etiquetas:

 
posted by Carpe Diem ¤ Permalink ¤


0 Comments: