Um momento para recordar


Em retrospectiva do que passou enquanto não pude actualizar o blog, no dia 01 de Julho, tive o prazer de me deslocar ao Corte Inglês (local do qual fujo o mais que posso) para conhecer e ouvir um dos meus mais recentes autores preferidos de literatura denominada "high fantasy", George R. R. Martin.

Foi um dos grandes momentos em que pude participar, na minha vida, tal como quando conheci David Lynch, Neil Gaiman ou Johnnie To (ainda espero um dia estar frente a frente com David Cronemberg). Não foi apenas uma sessão de autógrafos, mas também, um momento de conversa com os leitores, entrevista, leitura de um excerto ainda não publicado e, sobretudo, um momento de partilha entre este escritor bonacheirão, simpático, afável, simples e com ar de avô a contar histórias à lareira com a voz cavernosa como convêm para o seu estilo de escrita.
Para quem não o conhece aconselho vivamente a leitura da saga "As Crónicas do Gelo e do Fogo" que tem vindo a ser publicada pelas Edições Saida de Emergência, que se encontra no seu 5º volume (sai nas livrarias a 11 Agosto). Vale a pena o investimento e quando derem por vós estão totalmente imersos no mundo de Westeros e dos seus habitantes... eu já aguardo, ansiosamente, o 6º volume que apenas sai em Novembro.
Já me esquecia, ainda pude travar um pequeno diálogo com o autor e receber o seu autografo no 5º volume, foi assim: "Keep ur sword sharp". I will keep it allways, Master George :)
Carpe Diem.

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Literatura de Fantasia

Na minha opinião, quando quero relaxar de leituras mais exigentes refugio-me na chamada literatura de "high fantasy" que tem, em todo o Mundo, milhões de seguidores.
Um exemplo claro deste género que falo é a triologia do Anel de Tolkien e todos os livros que este escreveu derivados desta, contudo, a literatura fantástica tem vindo a evoluir e a melhorar constantemente.
Actualmente, publicam-se em Portugal duas grandes séries de dois autores conceituados internacionalmente no âmbito deste género literário, as séries "A Roda do Tempo" de Robert Jordan (Bertrand Editora - imagem aqui à direita) e "As Crónicas do Gelo e Fogo" de George R. R. Martin (Saida de Emergência - foto em baixo à esquerda).
Perguntam vocês qual a novidade destes livros e a resposta que vos posso dar é: "leiam e descubram". Para quem não se quer dar a esse trabalho eu explico, são histórias enormes já que a série "A Roda do Tempo" tem 12 volumes (3 editados em português até ao momento) e "As Crónicas do Gelo e Fogo" tem 6 (4 já publicados em português).

Assustados? Se eu disser que cada volume da primeira série tem, em média, entre 600 e 800 páginas o medo deve estar a agarrar alguns de vós, mas... ambas as séries, que ando a seguir avidamente conforme vão sendo lançados novos volumes, são "estupidamente" viciantes.
É certo que obrigam algum esforço de memória para situar toda a história dada a diferença temporal de publicação mas o gozo que dão a ler compensam largamente esta situação.
A primeira série é uma fantasia que se aproxima mais de Tolkien com a luta entre o Bem e o Mal, misturando humanos com seres misticos e uma mitologia poderosa e arrebatadora que levaria muito tempo a explicar aqui.
Já a segunda é bem mais terrena sendo, acima de tudo, um relato das intrigas entre grandes casas senhoriais pelo poder e fortuna... um enredo mais terreno e mais realista onde as descrições são fortes e ninguém se encontra a salvo, nem mesmo quem consideramos como principais personagens.
Vale a pena arriscar nestes livros, quanto a mim foi uma aposta ganha de ambas as editoras e, se me permitirem, retiro-me para ler mais umas páginas do livro "A Muralha de Gelo" (2º volume da série "As Crónicas de Gelo e Fogo").
Carpe Diem.

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Everyman
Confesso, antes de mais, que sempre tive curiosidade em ler uma obra de Philip Roth, tendo aproveitado o seu último livro que se reproduz aqui à esquerda para verificar se o "hype" não era exagerado.
A ideia de ler um livro sobre a morte e o envelhecimento do corpo pode parecer mórbida ou pouco interessante, contudo, desengane-se quem assim pensa, porque Roth escreve maravilhosamente bem, com uma pungência que nos atordoa e uma poesia que nos deixa enlevados e suspensos no éter.
Trata-se da história de um homem (o "Everyman" do título original e, porque não, qualquer Homem?) que se tornou naquilo que nunca quis ser. Ao longo dos seus últimos momentos de Vida recorda o passado, chegando à conclusão que tomou sempre, ou quase sempre, as opções erradas sem nunca conseguir explicar o porquê de as ter tomado ou de ter afastado quem o amava.
Não será a Vida isso mesmo? Um conjunto de opções que se tomam sem que saibamos onde nos leva, existindo mesmo aquelas que se tomam sem consciência, apenas porque apetece, por capricho?
É um livro curto (179 páginas - Edição Dom Quixote), escrito de uma forma seca mas irónica e certeira, tornando-se viciante no acompanhar dos ultimos passos deste "Everyman", rumo ao seu destino final. Um homem que se casou 3 vezes, tendo 2 filhos que o odeiam, um irmão que o ama e uma filha que o apoia incondicionalmente... contudo, a nossa personagem não é simples, não é totalmente bom (existe alguém totalmente bom?), tem imensas gradações de cinzento e alturas em que consegue ser terrivel.
O que mais custa neste livro é assistir à degradação do corpo, ao facto de se querer fazer algo e não poder porque já não se é novo... sentir que todos os amigos estão doentes ou a morrer e recordar um passado que se torna ainda mais doloroso, porque irrepetível. Encontramos ironia quando a personagem principal diz para a sua terceira esposa, antes de uma operação e na resposta à pergunta desta "o que será de mim?": "... Uma coisa de cada vez - disse-lhe - Primeiro deixa-me morrer. Depois eu volto para te dar ânimo..."
O personagem principal tem um lema de Vida bem realista, diz ele: "... Não podemos refazer a realidade. Temos de aceitá-la como ela vem. Aguentar firme e aceitá-la como ela vem..." Quantos de nós o fazemos? O mais dificil não é optar por um caminho, mas sim aceitar as consequências do mesmo.
A revolta da dor, a ideia de que a Vida é apenas uma passagem e que o destino final é a Morte, depois dela o que existe? Qual a finalidade de estarmos aqui? Porque complicamos a Vida quando ela é tão curta? Nada disto é respondido neste livro, contudo, é indispensável para quem ama a literatura e não tem medo de enfrentar esses Papões chamados Velhice e Morte.
"... Deixou de existir, liberto do ser, entrando no nada sem sequer saber. Como desde sempre tinha receado..."
Carpe Diem.

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O Tempo das Cerejas
Primeiro ponto, um livro mexe comigo quando leio um excerto e me puxa, neste caso falo do mais recente romance de Claudia Galhós de seu nome "O Tempo das Cerejas" (430 páginas - Edição Oficina do Livro). O que me puxou, inicialmente, para adquirir este livro foi este momento:
"... Há labios que se guardam num beijo. Colados aos nossos. Tocamos-lhes cada vez que tocamos com os dedos na imagem do passado. Ele ainda ali está. Nos lábios dela. A beijá-la. (...) Há beijos que não se esquecem..."
O livro é um imenso fresco contemporâneo, com musica de fundo (desde Amália a Nirvana), de personagens no Portugal real e no Mundo que se encontram perdidas... procuram o Amor ou a felicidade, alguém que os segure na velocidade dos dias porque "há beijos que não se esquecem".

As personagens irão interligar-se e formar uma "familia" fora do comum com mais amor e compreensão que uma familia "normal", dita nuclear. A busca da felicidade pode estar numa musica, na negação da idade real face à interior, na fuga do mundo real para uma "second life", na rebeldia da juventude ou na incompreensão da violência... são casos reais desta Vida que nos subjuga, cada vez mais, para uma velocidade incomportável a uma "slow life".
Li com prazer e revi-me em certas personagens, na ideia de um Portugal contemporâneo parado no tempo e que tem medo de evoluir, onde as pessoas com idade avançada esperam a morte em vez de viverem a Vida até ao ultimo suspiro... onde os preconceitos da Vida e a ideia de normalidade leva uma pesso a refugiar-se no mundo virtual para ser feliz e realizar uma utopia... a ideia de uma pequena comunidade livre, mas cheia de ideias... o convivio mais intenso acontece no meio virtual face ao real pelas vicissitudes da Vida... uma personagem que se "diverte" a ver o Mundo da sua janela, mas tem pavor de participar nele... um beijo na infância que marca uma Vida e cria um sonho possivel... a capacidade de mudar completamente o rumo e ser feliz, sem medo das consequências.
Aconselho este livro que está escrito de uma forma intensa e sem medo, demonstrando a futilidade de uma Vida em que se corre do emprego para casa e vice-versa, quando temos sonhos que não procuramos alcançar ou que achamos impossiveis. Eu pergunto, o que é o impossivel? Porque não damos valor ao que importa? Porque viver uma "slow life" custa tanto?Porque temos de lutar contra as aparências quando o que somos deveria ser mais importante?
Deixo-vos com um ultimo excerto do livro:
"... Os outros são apenas outros a partir da tua perspectiva e porque os olhas a partir do "eu". Se te mudarem de posição, e te retirarem o eu da formulação gramatical, se passares a ser tu, olhada a partir de um "eu" que é alguém distinto de ti, passarás tu a ser o "outro". O outro está sempre na posição oposta ao teu olhar..."
Carpe Diem.

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Encruzilhadas
A Feira do Livro para mim é um alegre suplício porque lá gasto umas massas mas venho apetrechado de muitos livros e quando o "Livro do Dia" é o livro de Tim Burton (já referido neste blog) e o ultimo de Ian McEwan, não há como resistir...
Desta feita trata-se de um pequeno conto (128 págs. na edição portuguesa da Gradiva) que retrata a noite de núpcias de um casal (Edward e Florence) no dealbar dos anos 60... com um ritmo intenso e seco, o autor oferece-nos mais uma pérola a juntar a obras superiores como "Amesterdão" (Booker Prize em 1998), "Expiação" (provavelmente a sua melhor obra até ao momento e, em breve, adaptada ao cinema) e "Sábado".
O pressuposto deste livro é idêntico ao de "Sábado", parte de uma situação simples de onde emergirá a violência e as escolhas sao feitas de forma precipitada.
Trata-se de um casal que desenvolveu um namoro casto e para o qual a noite de núpcias tem significados muito diferentes, para ele é a forma de se libertar e ter sexo com a mulher que ama depois de longo tempo sem lhe tocar e para ela é uma provação porque o sexo repugna-a (a justificação para isto é sempre subentendida mas explicada de forma poderosa pelo não dito) e essa noite torna-se o adiamento do facto consumado.
A acção desenrola-se num Hotel junto à praia do titulo, contudo não é isso o principal (nem a noite de nupcias o é) mas sim, como habitual em McEwan, o perfil psicológico das personagens e a intensidade que elas transportam para a Vida. Acima de tudo, tratam-se de opções e de escolhas que podem modificar para sempre o rumo de uma vida...
Que caminho tomar perante um cruzamento? Aceitar o que parece inominável ou ser paciente e esperar o tempo que for preciso? Acreditar que o Amor pode ultrapassar qualquer barreira ou antes pelo contrário pensar que apenas o momento interessa? Todas estas questões se colocam neste magnifico pequeno livro que percorre, em termos temporais, as décadas de 60/70/80 e 90 e está tão actual como se as personagens estivessem agora no presente.
Não me refiro ao aspecto do amor casto e puro no sentido de não haver sexo antes do casamento (apesar desta situação ainda existir), mas no facto de hoje em dia existir falta de paciência, pouca compreensão, inércia, discussões sem sentido ao primeiro precalço num relacionamento a 2... perdeu-se um pouco a ideia de ouvir e sentir o outro, de esperar, de dar tempo para que ambos se sintam bem...
Leiam este pequeno livro e pode ser que vos abra o interesse por descobrir a obra desse grande autor inglês que procura no quotidiano e nas pequenas coisas da Vida, a inspiração para os seus contos/romances.
Carpe Diem.

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Um Livro Diferente

Como fã assumido do realizador Tim Burton, vi toda a sua filmografia (ainda não a tenho completa em DVD, mas lá chegarei) e eis que, durante a minha visita à Feira do Livro, me deparei com a 2ª edição (em capa mole) do seu livro de histórias "infantis", ainda por cima como "Livro do Dia"... não consegui resistir e foi a melhor compra que fiz.
O livro chama-se "A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias"
(edição portuguesa Antígona) e tratam-se de 23 pequenos contos
góticos e ligeiramente macabros, acerca dos temas que norteiam a sua filmografia como a dificuldade de aceitação do diferente, os traumas de infância e a incomunicabilidade do ser humano.
Todo o livro é ilustrado pelo próprio Tim Burton, com um traço que recorda os filmes de animação "A Noiva Cadáver" e "O Estranho Mundo de Jack".
Não consegui resistir a colocar algumas gravuras aqui, no topo temos a história "O Rapaz Múmia", um filho de um casal que nasceu como um novelo de gaze derivado de uma praga de um faraó, resultando num dos momentos mais divertidos e emocionantes do livro.
Aqui do lado temos a história que abre o livro, de seu nome "Palitinho e Fosforina Apaixonados" e tal como o nome indica é a história de amor entre um palito e um fósforo, resultando numa relação muito quente :)
Por fim temos a história "A Rapariga que se transformou numa Cama", a qual por colher uma flor encantada se transforma numa cama, contudo e apesar da tristeza, no final fica contente por ter agora onde se deitar.







São contos de uma beleza diferente, originais, cómicos ou comoventes mas que não deixam ninguém indiferente. Obrigatório para fãs de Burton e para quem não conhece e gosta de coisas "diferentes".
Caso não queiram dar o vosso precioso dinheiro para adquirir o livrinho (mas olhem que merece até ao ultimo cêntimo) podem encontrar a totalidade dos contos com desenhos no site http://homepage.eircom.net/~sebulbac/burton/home.html.
Carpe Diem.

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Pedro Paixão
Tenho de falar aqui de um livro que sempre mexeu comigo e me fez descobrir um autor português diferente e irreverente, de seu nome Pedro Paixão. Considero que este escritor descreve aquilo que as pessoas pensam, mas são incapazes de dizer. A sua escrita pode ser, contudo, demasiado disconexa como se de fluxos de sonhos se tratassem.

De entre os vários livros escritos por este autor existem alguns com nomes icónicos como "Cala a Minha Boca com a Tua" ou "Viver todos os dias cansa". Mas é do meu livro favorito ("Muito Meu Amor") que retiro algumas frases para partilhar convosco e quem sabe vos motive a descobri-lo:
- "... Queres saber quem eu sou? Eu sou o que te olha e espia para te recolher e depois guardar num lugar que é só meu. Para isso serve o papel. O resto não precisas de saber. Nem convêm. Só te ia distrair, podes crer. Eu sou o que mergulha as mãos na tua vida para sentir a minha a voltar ..."
- "... Por vezes gosta-se de uma mulher por não haver outra por perto de que se possa gostar. Por vezes gosta-se de uma mulher por se ter gostado muito de um homem que deixou de gostar de nós e precisamos de tudo tentar para o esquecer. Por vezes gosta-se de uma mulher por lembrar outra mulher de quem se gostou e não descobrimos quem possa ter sido. Por vezes gosta-se de uma mulher por se estar muito cansado de se gostar muito de uma outra mulher. Por vezes gosta-se de uma mulher só por gostar. Às vezes ele escrevia uma colecção de disparates que lhe juntava para oferecer. Às vezes ela ria, outras vezes não..."
- "... Por vezes gosta-se de um homem só porque faz falta para ir ao cinema. Por vezes gosta-se de um homem só porque o corpo tem intermitentes exigências. Por vezes gosta-se de um home só porque não se gosta de outro. Por vezes gosta-se de um homem só porque nos faz rir. Por vezes gosta-se de um homem só. Às vezes ela escrevia frases que depois lhe lia. Ela ria. Ele ficava muito sério a ouvir, a tentar descobrir em que caso cabia..."
- "... É tão estranho conhecer uma pessoa. Tão dificil que parece impossivel. Não existir e passar a existir: uma pessoa inteira, um mundo inteiro. Onde caberá um mundo inteiro neste mundo pequenino? Como é que se consegue? Como se faz?..."
- "... É preciso que saibas que, entre a liberdade e a segurança, a grande maioria não escolhe a liberdade. A liberdade precisa da coragem de lutar com o medo, sem a certeza de o vencer. E o medo existe sempre, ontem, hoje e amanhã, e a coragem é tão rara como o espirito que ama a liberdade..."
- "... Por que queres tu que os meus lábios sejam só teus? Porque só eles são iguais aos teus..."
- "... E para que serve o amor, diz-me já. Serve para perder o medo..."
Carpe Diem.

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